A arte de Almandrade
(pintura, desenho, instalação, escultura, poema visual e objeto)
by Alexandre G. Vilas Boas

 

Almandrade é arquiteto por formação e escritor. Suas incursões pela literatura e poesia visual, deixam-nos antever a sua verve intelectual. Os signos presentes em seu trabalho interrogam a estrutura da linguagem, em uma autêntica postura pós-moderna, em que o ser humano cria a felicidade que tanto procura no encontro com a dimensão do imaginário. Neste sentido, como foi dito na apresentação deste trabalho, a imaginação, diferentemente do imaginário, propõe ações. O imaginário se ocupa da poética da vida e das produções artísticas simbólicas (Durand, 2002). A criação de novos códigos, segundo Almandrade, poderiam se dar em qualquer suporte, para isto, o livro prestava-se como excelente suporte. Almandrade é um pioneiro da Arte contemporânea na Bahia, causando grandes transtornos em Salvador, durante os anos 70, com sua ácida carga poética e sua atuação questionadora diante das sisudas instituições locais.
Sua poesia visual é sintética, gráfica, e as escolhas adotadas em sua confecção, materiais, soluções gráficas, aspectos finais, evidencia a potência intelectual presente na criação. Não podemos esquecer que a poesia concreta dele está fortemente amparada também por sua relação com a arquitetura. Mestre em arquitetura pela Universidade Federal da Bahia, sua obra reflete essa sua formação; o arquiteto constrói sua poesia cuidadosa e racionalmente, como um ativista da arte como conhecimento. Detesta que associem a arte ao entretenimento. Seu trabalho possui esta carga que nos interessa.  Um dos pontos que nos fez deter mais atenção e trouxe subsídios para esta pesquisa, foi exatamente o oposto do que vimos em Barrio. Almandrade possui também o controle absoluto de sua obra, como Barrio, porém, tudo é meticulosamente organizado. Há uma ordem que se antepõem ao caos do precário que Barrio assume utilizar. Almandrade minimiza este caos através de sua organização racional e meticulosa, com se pode imaginar vindo de um artista arquiteto, acostumado que é, por formação, a trabalhar com o espaço de maneira organizada, como seu metier exige.
Mas, este controle cerebral, racional, de justaposição de tudo, formas, cores, pesos, valores, busca desconstruir nosso condicionamento. Isto não o impede de atingir como todo poeta, temas recorrentes, como o amor, o erotismo, a dor, temas aparentemente comuns, mas, tratados por ele de maneira extremamente ácida e consequentemente política. Tudo está em mais perfeita harmonia e é exatamente por isto que nos incomoda. Outro aspecto relevante de seus trabalhos, são as publicações que fez; alternativas, entre elas, uma revista sobre semiótica, o que, naquele momento, década de 1970, poderia parecer a mais absoluta loucura.
Em seu trabalho já era possível identificar, de maneira cuidados, os embriões de uma crítica feroz aos sistemas. Almandrade nos fala do silêncio e dos perigos durante a ditadura e do cuidado que tinha, mesmo sem ter tido problemas diretamente com as forças de repressão. Pare ele, a política e os meios, devem ser pensados no interior da linguagem. Um trecho de sua entrevista nos chama a atenção:

“a arte era uma forma de quebrar esse silêncio, no meu caso pensava a política no interior da linguagem. “toda linguagem é fascista” dizia Barthes, tinha um compromisso de bombardear a linguagem mostrar como ele nos impõe uma forma de ver o mundo e existia outras formas…. criar novos códigos era uma forma de agir politicamente. Naquela época tinha várias formas de agir, tinha quem agia mais diretamente”.

Para este bombardeio de que Almandrade se refere, ele lança mão de todos os recursos que têm à época. No mesmo espírito da arte postal, sem regras, meios, júris, premiações. Apenas o trabalho experimental que vai surgindo sem a necessidade de aprovação. Aqui temos alguns de seus poemas processo e poesias visuais, enviados naquele momento, junto de livros de artista, copiados em eletrografias, feitos à mão e por meio de outros matérias que constituíram rede de arte postal, configurando o que chamamos até aqui, de ate ativista e híbrida.
Almandrade se apropriou dos meios, cruzando-os sem qualquer constrangimento, em uma tarefa que só quem domina completamente a linguagem consegue obter êxito. Como menciona em sua fala, ele bombardeia a linguagem para destruir suas imposições à poética. Belo este movimento, se considerarmos que a destruição se faz necessária aqui para a construção do novo. O eterno mito de Sísifo, entregue em sua difícil tarefa de levar a rocha morro acima.

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