Vereda 26 (2019): scritture e introduzione
by Ana Sávia and Wellington Silva

 

Ana Sávia — Ilustrations and drawings
Wellington Amancio da Silva — Text

 

Dá a maior importância ao seu fazer artístico: uma espécie de culto elevadíssimo, em que somente ela iniciou-se. É mística! É lida! Seu ateliê é a casa toda, a sala, o sofá vermelho, a pequena plataforma branca de plástico sobre as pernas, que utiliza para recostar o papel e desenhar; a mesa da cozinha, o armário da cozinha; o assento da moto no pátio. Há pequenas manchas de cor sobre o piso e há translucidas marcas de tinta num canto ou outro da parede — são indícios da sua arqueologia pictórica. Na sala, anda apressadamente, de um canto para outro, com a folha sobre a mão, como quem segura uma criança pequena. Seu work in progress é febril e lúdico. De pijama branco, canta enquanto pinta, desenha e experimenta técnicas, e sorrir um riso matreiro que antecede sempre uma gargalhada estridente de adolescente. Ela me interrompe sorrindo e me obriga a observar sua arte, cada detalhe, e eu somente sei calar, porque ainda não encontrei a palavra certa para o que ela vem fazendo ultimamente. Ela é a sagaz descobridora de técnicas! Ela pinta minha palheta de guitarra com lápis de quadro branco e desce-a sobre o papel cartão fazendo veredas borradas de preto, cujas texturas são de grande beleza e detalhe. Encontrou uma mina de ouro naquela palheta, que já não é minha (diz: “é mais um dos meus instrumentos importantes de trabalho”). Recorta um pedaço de plástico e tem assim uma palheta maior, e pinta e desce-a sobre a folha branca de papel cartão. Em seguida, usa o lápis de quadro branco para fazer um contorno espesso que não se conclui, e repete o contorno num outro canto da folha branca — quase nunca prefere fechar um círculo com aquele lápis, talvez porque não goste de finais, de coisa ligadas. Ela prefere contornos côncavos e convexo, e contorno em “esse” (s). Prefere desenhar linhas em ângulos fechados e arriscados, e que avançam na extensão da folha branca, sem intencionalidade nenhuma, exceto a da experiência do “enveredamento”, do “abrir caminho” naquela caatinga alva de papel. Como quem adentra respeitosamente uma catedral antiga, o seu traço é a conquista dos espaços da folha. Com quem entende o que uma nuvem diz solenemente, escuta o rogo sutil do papel que anseia a cor e a forma. E há estrelas, espirais, cruzes, um olho místico, molas, congestionamento de pontos. Há ventosas, nuvens, vitrais em forma de cúpula, eriçamentos dourados, cubos complexos, pipas, trançados, e veredas, muitas veredas, vinte e seis veredas.

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