Oh, baby
by Leonardo Rodrigues and Wellington Amancio da Silva

 

Oh baby, não se mate hoje. Não é um bom dia para morrer. Sempre quis ter um filho, mas a vida me presenteou com um macaquinho tetraplégico que caga pra caralho, e nem tudo é belo. Bem sei que a tua dor é só tua e sempre será. Compreendo que a idade já começa a dar seus primeiros sinais, sim eu sei. Entendo que tuas entranhas talvez já comecem a apodrecer gloriosamente, mas Domingo não é um dia bom para morrer. Venenos de ratos nunca foram bons. No singular ou plural? Digo, há um caminho mais elegante pra se trilhar no suicídio. Cigarros, café, açúcar e álcool. E todos são criativos, e o corretor me salva, nos salva, mesmo perdidos. Um frio bate, alguém à sala? Seria um deus hoje ou a polícia a me visitar? Subseres da lama de esgoto. Eu ando em feiras pesadas, do nada ou do caralho.  Facas?

Um rato me visita e algumas baratinhas e alguns demônios. Ontem tentei ler Burroughs, mas a porra do PDF me cansa e não tenho mais grana pra desembolsar.  Oh, minha cara, a tua cara me lembra a inocência que pensei ter em livros sagrados. Hoje como o monstro que não se nega, pleno em maldade, isento de injustiça, embora o mal deva ser comedido. Mais uma garota estuprada por 17 anos, mas a providência lhe salvara. Embora tarde, antes tarde do que consciente. Teço o libelo do sumido sagrado. Oh, minha cara, nunca estive tão pleno, como um ditador na terra dos infantes. Escute um disco que não seja gospel, que lhe dê um gozo e a faça sentir mais morta do que nunca. A tua mente mete a real corrompida amortecida. Repito: Domingo não é um bom dia para morrer. Amém. Meia lua pra trás e Y. Talvez haja, realmente, muita vida lá fora, mas não sou o Lulu Santos. Só pra lhe animar, como palhaço de semáforo, fodido no sol quente, enquanto existem milhares de trabalhos legais e prósperos. Será que realmente você existe, ou só abstração? Ou quem sabe, da vida, já abortada?

Deveria sentir remorso por causar tua dor, talvez sinta, e é um peso do caralho. Drogas reconfortam. Esse teu olhar fascistinha que detona um homem, bruxa que suga a alma de vários seres rastejantes que bebem álcool…pálida como papel, a tua insatisfação me fascina. Como um sacerdote sedento de sangue, como um super-homem sem cobranças, sem nexo, somente pra você.  Até lhe levaria a igrejas pra desdenhar, efervescer minha amável mania de galhofar o que vejo tua dor. Tuas pernas que cansam como abelha moribunda operária fatigada e sem recompensa. Tu és coletiva e não vales nada! Não queria falar, mas quase ensandecido, quando você ora, a linha de resposta está ocupada, justamente, porque não existe ninguém do outro lado, nunca. Que digam os fetos assassinados todos os dias que matam as suas mamães, que tragam os seus libelos de liberdade, que dizem -hoje é a vingança! Não há resposta e nunca haverá, mas Domingo não é um dia bom para se morrer! Camilla quase morreu afogada, mas era tudo fingimento. Pergunte ao Pó! E ela tirava uma onda de Bandini, Arturo. Nem Vera, ou ninguém, nem o Reneval. Escrevo à conta-gotas da loucura, o panegírico do nada.

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