A desconstrução da ordem silábica e das linhas ordenativas sob o paradigma do automatismo das mãos
by Wellingont Silva

 

O paradigma do automatismo das mãos tem como pragmática o exercício do devaneio das mãos, que sustentam suas “ferramentas de representar (desenhar)”, como quem no paleolítico manejava um fruto (anterior à pedra como “ferramenta de intervenção” pensada), e sobre a folha de papel constitui um gênese da palavra, um esboço alfabético, uma antecedência surreal ao silabismo, sobremaneira em oposição ao grafismo dos tipos das artes gráficas – que é posterior a proto-ferramente de contiguidade como o mundo pragmático. Tem certa correspondência com o conceito advindo da obra de Jackson Pollock no que diz respeito, in media res, entre os limites da operação coordenação motora sobre uma base livre de fundo neutro e entre o meio espacial, a “barreira vazia”, o vão entre o pincel ou a lata de tinta e a base de fundo neutro-reverso. É neste vão onde reside o aleatório, e não na obra em si. O paradigma do automatismo opera mais no meio, isto é, no vão entre o pincel e a base de fundo neutro-reverso. E é neste “vão de entre”, no vácuo do operacional que as mãos aplicam em liberdade a sua força, que aqui chamamos de devaneio por uma questão fenomenológica, isto é, do abandono de juízos motores sobre os atos premeditados das mãos da arte. A passagem do gesto impensado no âmbito do desejo reconhecidamente aleatório do artista desencadeia um rompante pictórico sobre a base de fundo neutro-reverso. E todas estas ações desconstrutivas retoma a escrita à sua anterioridade fora do logos, no âmbito de uma proto-linguagem. Este trabalho é de uma arqueologia logográgica.  No âmbito da produção humana, a resultante, posterior à “ferramenta de intervenção” de mundo, e posterior às “ferramentas de representação” de mundo, há o produto da proto-linguagem. A representação ainda é arqueossubjetiva, muito embora, dentro do repertório mental do grupo que vivencia aquela proto-linguagem, haja certo entendimento intersubjetivo: isto que dizer que o produto da arte, a partir do paradigma deste automativos é um objeto cuja abertura de sentido negocia entre seus “interpretes” antes sua presença do que seu sentido, neste universo de polissemia ao extremo e em aberto.

O automatismo visa reencontrar aquele traço desacostumado e convencionalizado. No que diz respeito à poesia visual, sua temática, por assim dizer, abstracionista e intuitiva, sustenta-se no primado da proto-linguagem. Se aí encontram-se os signos necessários para uma poética visual, estes signos são antes movidos por uma ação decisiva: um desempenamento semântico dos traços gráficos. O lugar das possibilidades da arte é o lugar do inesgotável como expressividade, porque esta aporia entre intervenção e representação é uma qualidade, isto é, aporia como desacordo necessário, não dicotômico, não dialético, porque é neste vão de dentro, neste horizonte sempre novo e imperscrutável onde residem os “abstratos que ainda não são linguagem” e as margens de transsignificação de mundo.

 A desconstrução da ordem silábica e das linhas ordenativas é um retorno artístico e poético ao universo proto-linguístico e protossemântico da arte e da existência. Este retorno possibilita à arte um retorno a sua função de representação (rupestre) e não de representação artística de galeria. O não-artista apreciador das artes kantiano não encontrará um lugar aí. No que diz respeito à desconstrução da ordem silábica e às linhas ordenativas, sua tangência para fora da Convenção é um retorno para o mundo como presença e menos como sentido tácito e consensual.

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