Microentrevista no divã da nossa própria deep web

 

         Leo Barth, Wellington Amancio da Silva (José Amancio)

 

O presente texto é fruto de conversa netinterativa, entre mim e o escritor alagoano Leo Barth. Transliterei ou rememorei as conversas (segundo certas e daninhas aleatoriedades). Estes questionamentos de Barth, segundo me disse depois, procuram sintetizar seus próprios diálogos com amigos do CLUM — círculo literário underground de Maceió, após leitura de “o reneval neste Círculo.

 

Leo Barth — Bicho, o que é “o reneval”? Tentaria sintetizar a parada?

 

O Roedor — O livro de versos é dividido em sete seções, cada uma das quais denominadas de litania[1], cujo substituto, geralmente uma frase em latim, assinala o espírito do conjunto dos versos. Recorro à personagem de Antígone, de Sófocles, assumida na condição de voz discursiva da maioria das litanias, pois eu não poderia fazê-lo sozinho. Antígone abre-se à oratória da primeira litania, falando de si, falando do topos sobre o qual está-se, falando do horizonte existencial que a rodeia, falando dos seus complexos sentires, falando do destino, e sua fala é a celebração a égide da Cacofonia[2] (ou o áureo da linguagem que melhor evoca o mundo). Antígone aceita o destino e compreende sua tragicidade, e é por aceitá-lo e compreendê-lo que investe sobre ele. É a personagem mais forte mundo. Ela, Antígone — a filha e irmã de todos os homens desventurosos — é mais forte que o destino. É disso que trato na primeira litania — o fato de Antígone ser mais forte do que o destino. Antígone é Aquela-que-recusa! Que se agarra a última chance de redenção.

Fiz a segunda litania inspirado na sétima canção Fitter Happier do álbum “OK Computer”, do Radiohead (que possui também esta entonação de litania) — em “o reneval” toma a forma de uma alusão ao homem contemporâneo, de meia idade, em busca do que está de fora, e não compreende bem esta busca.

Na terceira litania ensaio uma espécie de metapoética (sempre do ponto de vista do trágico). Aí o que interessa-me é a palavra, isto é, o elemento primeiro de sentido-de-mundo, de investida sobre o mundo. Há um elemento metafísico — de recorrer à linguagem para ser no mundo. Sem a palavras não somos nada, e habitando nela, respirando e caminhando por ela somos um “quase”, um “talvez”, ou um “quem sabe”. Esta terceira litania tem continuidade na sexta e na sétima, que se concluem aludido à condição do poeta, às idiossincrasias do poeta.

A quarta é uma alegoria aos “poderes deste mundo”, — termo ainda expresso romantizadamente, visto não haver poder algum, além do que chamamos de paciência-da-natureza-em-relação-a-um-mando-de-idiotas-governates. Dito isso, a quarta litania alude debochadamente ao homem “poderoso”, que definindo poderes aos seu redor, está certo de estar-se contido no poder. Não há nada mais ridículo do que está certo de estar-se continho no poder, porque as estruturas do universo por vezes se agitam sismicamente — de um ponto de vista escatológico, digo natura non contristatur! Nesta quarta litania, o poder é ridiculamente uma vontade de importar-se comigo mesmo, adotando uma hermenêutica de mundo para si que ninguém mais neste mundo adota para si.

A quinta litania é uma longa metáfora sobre o destino. Aí incorporei elementos da literatura trágica ao mesmo tempo em que evocava-se o ambiente caatingueiro. Faço a alusão à condição trágica de ser homem. Retorno ao arquétipo do rei (o homo ridiculus universalis), o asshole-being.  Trato obliquamente da condição de Sísifo (persona sempre revisitada e sempre), isto é, do trabalho inútil de cada-um-ser-vivente-nesta-terra: à diligência de alguma coisa/as mãos desatam o nó da lida/ […] e o mundo é todo de coisas ocas.

A sexta litania temos uma prece anelante de devotada a Santa Cacofonia, que é, por assim dizer, a fundadora do Ocidente. Na sétima litania trato da condição do escrito em que ao seu redor tudo e tudo descoopera contra a sua sina, a sua lida, a sua escrita — e é o escritor chamado de “zé”, porque ali, em sua pátria de Epipocal, ninguém mais se lembra que existe uma coisa chamada Literatura, e zé quer mostrar a quem o que escreve? (eu não te digo porque seria como um palavrão, uma pilhéria absurda ou um praguejar). Acho que é o suficiente. Não mergulhemos nestas duas últimas litanias. Deixemos para uma próxima oportunidade, quem sabe e talvez ou sabe-se lá quando.

 

Leo Barth — Na segunda litania você remete ao Gutenberg — o inventor da impressa —, perguntando-lhe alguma coisa que se relaciona com “veículos”. Por favor, qual a relação entre “Gutenberg” e “veículos”, visto ter sido ele um homem renascentista, isto é, anterior a Revolução Industrial?

 

O Roedor — Na época de Gutenberg vivia-se sob um paradigma científico que abria o desejo da humanidade a uma “vontade de máquina”. Viveu ele numa sociedade que iniciava sua transição epistemológica quanto mais se apropriava do paradigma Copernicano. Essa “vontade de máquina”, que por sua vez tem o desejo de gozo-da-réplica, ou gozo-da-replicação, e a Modernidade se consolida pela replicação (seu espírito e estrutura universal), e Gutenberg é pai desse gozo. Por isso quando falo de Gutenberg, quero aludir à “vontade de máquina” e seu ao desejo de replicação ad infinitum. Em relação aos fundamentos estruturais deste nosso mundo ocidental, todo “coito replicativo” que espermatiza em todo lugar, fazendo gestar replicantes, tem como resultado deste coito o lixo. Assim como uma árvore dispõe de frutos como um “fim”, por assim dizer, Gutenberg nos dispôs a impressa e nós dispomos teleologicamente ao mundo o novo produto último e ontológico, o lixo. Por isso, quando em o Reneval eu insisto no “lixo”, “lixo”, “lixo”, estou evocando a Ontologia da Replicação.

 

Leo Barth — Fale-nos mais, qualquer ou alguma coisa, sobre “o reveval”.

 

O Roedor — No percurso de escrita de “o reneval” eu estava muito envolvido com filosofia. Estava pensando neste desejo muito humano, de “gozo de replicação”, de “desejo de cópia”, e que os alicerces do mundo são de tijolos iguais, e que a nossa existência, meio e finalidades são de tijolos iguais, e que a nossa redenção é um muro bem grande de tijolos iguais, e as escatologias-de-mundo será um ruir estrepitoso e sísmico da fachada imensurável de mundo de tijolos iguais, e que o amor é um tijolo-seis-furos. Para além da filosofia, todavia, a confecção de versos e o desejo da escrita poética, na forma da dicção idiossincrática neste livro, não permitem um discurso do tipo “geométrico”, do tipo “cúbico”, o reneval é uma experiência, e num misto de escolha pensada, reflexiva e também intuitiva (porque a intuição alcança a epifania), adoto o uso de alguns espaços vazios e fissuras no cerne da palavra, no jogo da tensão semântica, objetivando que o leitor exerça autonomia de significação sobre a linguagem. A escrita de “o reneval” pretende-se quebradiça como os sulcos e as reentrâncias dos troncos de uma velha Spondias tuberosa, imita as sinuosidades abruptas dos seus galhos, que são uma forma de escrita pênsil no vão da paisagem, ao tempo em que sustenta sua frondosidade.

 

 

 

 

[1] Litania é “prece”, “reza” geralmente em forma de petição ou louvor. Adotamos aqui tal formato, sem pretensões religiosas ou de crítica à fé. Temos aqui preces mundanas, alçadas a nenhum deus e para lugar nenhum. São cânticos sinuosos ofertados aos homens, ao entendimento dos homens.

[2] A Cacofonia, é a dimensão especular do mundo.

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