SOBRE A OCIOSIDADE DO OBJETO 
by Wellington Amancio Silva

 

RESUMO

Este ensaio procura aprofundar a compreensão de como os objetos “projetam a sua ociosidade sobre nós e de como a reproduzimos em gestos e modos de estar, permanecer num tópos. O conceito de ociosidade é tratado aqui obliquamente a partir da categoria “objeto” da qual não se desliga. A discussão é pensada, de modo “particular” e experimental, a partir do horizonte conceitual da Epistemologia Metafórica de Mira (2013).

Palavras-chave: Objeto; Ociosidade; Arquitetura interna.

 

ON IDLENESS OBJECT

 

ABSTRACT

This issue seeks to further understanding of how the objects “project their opacity on us and how we reproduce it in acts and ways of being, to remain in a tópos. The concept of idleness is treated here obliquely from the category “object” from which it does not disconnect. The discussion is thought, in particular and experimental matters, from the conceptual horizon of the Metaphorical Epistemology from Mira (2013).

Keywords: Object; Idleness; Interior architecture.

 

Não sei que paisagista doidivanas

mistura os tons… acerta… desacerta…

Sempre em busca de nova descoberta,

vai colorindo as horas quotidianas…

Mário Quintana

 

O objeto especular

 

A assimilação da forma da coisa é processo de objetivação. Em oposição à matéria do conhecimento da coisa, sua forma é apreendida pela intuição sensível num processo de similitude a partir de um repertório de formas taxonomizadas. Após a “formalização” da coisa, isto é, pela razoável compreensão do que significa, temos não mais uma coisa, mas um objeto do conhecimento, objeto racionalizado e denominado. E aqui é premente destacar a função da linguagem no emprego de conceitos e na referência à coisas em si, ás coisas, aos objetos e aos sujeitos, linguagem também como objetivação. Se uma das funções da linguagem é referenciar as coisas, no intuito de objetiva-las para nós, a função das “coisas objetivadas”, isto é, dos objetos referenciados, denominados, racionalizados,  é antes de tudo consolidar este sentido que a linguagem o atribuiu. A função do objeto é determinada — muito embora esteja condicionada, em grande medida, às a forma – transitam a partir de certezas sobre certezas, nas encruzilhadas econômicas —. A dinâmica de ser das “mentalités” é referenciada, na história, pela forma de consciência que lhe dá sentido, sob o peso do trabalho para a sobrevivência — escapar desta condição é ultrapassar a si mesmo, e a consciência. O objeto dado no horizonte da “intuição sensível[1]” apresenta-se em sua materialidade especular, na forma-produto, e é, a partir daí, um referencial, um marco, um aceno, um sinal. Desta interação — do modo de produzi-lo e pelo modo como a consciência dá-se no horizonte do desejo das formas, das auras, alusões e conteúdos — seu produto especular é o objeto. O objeto nunca é um fixo.

 

De modo geral, em que o objeto contribui para o habitar? Como habita conosco o objeto, no sentido de permanecer, morar? (Heidegger, 2012). Aqui, o conceito de objeto parte do princípio de domínio e apropriação da coisa indiferenciada e imprecisa na Natureza, em elemento produzido para as contiguidades: o objeto é o produto do domínio, da realização; é sempre um instrumento de mediação, um objeto técnico, uma “ferramenta” (Simondon, 1969), cuja realidade ontológica está intimamente associada com a existência do humano. No regime do objeto, o conceito de mentalités é correlato. Residem no arcabouço abstrato do conceito-objeto “repertórios mentais” acessíveis aos iniciados na ociosidade.

 

Imagine o ambiente da sala e os seus objetos constituintes: sofá, almofadas, tapete, mesa, tevê, estante, livros, revistas, quadros, pequenos objetos, adereços, jarros, esculturas, ornamentos coloridos, flores. Na ociosidade, os objetos mantêm-se em “média ausência”, dispostos nos pontos, marcos, interstícios, recônditos, espaços, sombras e entrecantos, como vincos na arquitetura interna e externa dos estabelecimentos; estes também se contrapõem nos lugares de passagem — e ainda nos lugares esquecidos, em que objetos ao léu estão arranjados no espaço de um hiato, numa disposição de silêncio e de indiferença, são atopos nestes lugares-de-esquecimento. Todavia, nos lugares onde transitam os viventes, da sua condição temporal e espacial de descanso, e apelo para o olhar, o objeto em ócio está para nós, e para nos fazer pensá-lo no deslocamento possível da sua condição de objeto. O descanso do objeto como ociosidade é ainda para nós uma disposição de ordem, organização cartesiana, de “tudo em seu devido lugar”, suscitando a pácis — essa impressão moderna; o mundo continua em seu status quo — o Estável — enquanto a poeira e o sismo não o tiram do lugar.

 

No ângulo mais elevado da sombra do objeto (sobre a superfície de uma mesa-objeto, por exemplo) é tecido um páramo onde o olhar descansa — e o que é requerer, senão sinalizar sua presença? O olhar o sabe. Este objeto plausível – que demanda para nós algum sentido – ao menos se enunciado, advém da sua abstração necessária à corelação com o seu objeto posto entre, sobre, abaixo ou ao largo de uma superfície; quando posto, demanda sempre alguma enunciação (e a palavra objeto e seu “estar num lugar” requerem um objeto para além do seu útil). O “espírito do objeto” é uma projeção, e pode existir em nós pelas afetividades, muito mais através da “nódoa da vidraça da janela”, aquela da memória individual; o espírito e o espaço interior, de habitar constituem – entre si e para os que aí habitam – alternâncias de ângulos agudos e obtusos, salientes e reentrantes. O objeto é plausível na medida em que é assentado nas mãos, no horizonte do olhar sobre um lugar-superfície. Assim, as possibilidades geométricas do objeto não se esgotam. O objeto é um elemento “vivo” — não no sentido latino de anima -, mas de determinação, mais ou menos independente de uma demanda de significação a partir da sua posição de ociosidade. Sobre a determinação do objeto em ociosidade, em “Ruído Secreto” (1916), o cordão tece uma “pausa” no interstício quadrado e de metal, entre as paralelas, num apelo cujo discurso secreto convém apenas entender aos iniciados no ócio contemplativo. O tipo de ociosidade que se vê aí, na obra de Duchamp (Figura 01)[2]é imposto pela composição e pela voz média do rolo de barbante amarrado a si mesmo. No centro obscuro do rolo há um hiato onde o ruído — segundo a ordem de permanência da obra em importância e significado — repercute em segredo. Talvez não se possa auscultar esta aflição orgânica, de sons monossilábicos, visto que não poderia haver nisto, até aqui, enquanto uma demanda racional para a linguagem. Todavia, a sua posição possibilita um transito de linguagens. Mas o que é um ruído no horizonte ocioso do objeto?

 

 

 

A Ociosidade do Objeto

 

Ao se perguntar sobre o sentido de ociosidade, antes de tudo, este sentido é condicional ao objeto. A ociosidade conceitua-se a partir do modo próprio do objeto. Em meio a tantas outras, a função dos objetos, nos interiores, é, por assim dizer, fazer-nos confiar em nosso próprio mérito, aquele que diz respeito ao domínio geométrico perspectivado sobre os espaços, lugares e objetos (Figura 02), eis aqui uma luz sobre o modo próprio do objeto. Esta perspectiva, a do objeto – sobre as superfícies contíguas ou intangíveis -, racionaliza a paisagem interna em natureza ordenada, reorientada; é uma ambiência própria do humano — o modo como se constitui a morada – em resposta à arborosidade aleatória da φύσις onde habitávamos nos tempos passados (todavia, por causa do mistério dessa φύσις, habitávamos sob um profundo senso de contemplação). Essa ambiência arquitetada é um objeto constituído, é um produto pensando como resposta à ausência de porosidade de sentidos na superfície das cavernas outrora habitadas; essa ambiência arquitetada é uma disjunção a esta superfície hermética, das superfícies rupestres de granizo bruto de uma Lascaux, antes da sua porosidade pictórica. O domínio geométrico perspectivado abre para nós uma paisagem própria nos ângulos do habitar — é aí onde os objetos se distribuem ao seu modo; essa ambiência arquitetada é um objeto oco, uma Sphären (Sloterdijki, 1998), um objeto projetado para comportar objetos, que conosco partilham uma morada e um sossego, pois, como foi dito, ex nihilo nihil fit. A ordenação geométrica perspectivada, sobre a paisagem interna, é arquitetada pensando o objeto, e em seguida, redistribui os objetos num plano subjetivo e ora determinado pela Linha — e pelos “encantados” do autor (Figura 03).

Esta Linha apresenta para nós uma semblância pacífica e nos permite descansar em sua espera. Os objetos fazem circular em sua periferia um “chamado” às possibilidades de rearranjos, em relação uns aos outros; para isso, requerem tempo — e nos aguardam — para serem pensados, combinados, postos em contrastes sutis, ou patentes, uns com os outros; são eles, entre outros entes, que demarcam nossa presença nos espaços da casa (Bachelard, 2001).

 

No ângulo mais elevado da sombra do objeto e da sombra humana, amalgamam-se corpo, conceito e objeto, num horizonte de autoria e da produção (Figura 04); esta harmonia, como subjetividade, faz soar em ipsissima vox, entre os objeto e os corpos, em seus devidos lugares, o “ruído”, outrora secreto, o ruído da alma que advém da presença.

A ociosidade do objeto é antes de tudo superfície porosa; transcorrem aí nossas memórias, nossas afetividades, sentidos que atribuímos; aí descansam nossas certezas e oscilam nossas dúvidas — “há uma caixa dentro da caixa…” – esta é a metáfora para o objeto em ociosidade. O objeto é sempre um marco de um evento, mas não é estática a sua condição, porque qualquer ociosidade é provisória, até que se pense nova possibilidade de disposição. Destarte, sobre o móvel tem a função de sinalizar acontecimentos, e estes perduram no objeto. As nossas representações são evocadas ali – circulam em seus interstícios, transbordam por sua orla, transita nas pontes invisíveis entre objetos, descansam em sua superfície. Como uma epistemologia metafórica (Mira, 2013) é preciso refletir o trânsito, a posição e a presença do objeto ao correr do olhar do transeunte ou do residente.

A luz exterior refletida no objeto é transmutada em forma angular cuja natureza é a de se combinar por similaridade à ordenação geométrica do ambiente — a interação entre luz e objeto oferece-nos um tipo próprio de ociosidade -, muito embora esta luz exterior, sobre a forma tangencial do objeto, não se desfaça de todo da sua constituição originária, da sua φύσις[3].

 

As mãos que trabalham o barro são as mesmas que tateiam lúcidas a superfície porosa do objeto, porque, neste jogo sensual de ofício e ócio, “a metáfora, além de seduzir e desencaminha, é capaz de explicar” (Mira, 2013, p. 3). Por exemplo, a heterotopia da quinta linha (Figura 05) no quadrado perfeito é uma abertura através da qual se dispersam ideias fixas e normas que monotonizam as perspectivas de um ambiente vivaz. Esta metáfora, a representação dos quadrados na imperfeição da forma, permite uma vazão de sentidos possível no transcorrer das formalidades não ociosas.

 

Dito isso, a ociosidade é aparente repouso e quietação — é certo que confunde o olhar desavisado; está mais para a flexuosidade das linhas intrínsecas do objeto concebido como sentido – linhas para além da sua forma convencional e protocolar. A ociosidade do objeto não está para as linhas precisas que lhe dão forma geométrica concisa, muito embora transite livremente aí, nesta aparente concisão. A ociosidade é o não-conciso, é a metassíntese que escapa à forma geométrica precisa e formal, é àquele aspecto do objeto que mesmo estático ao olhar meneia para os sentidos do observador que lhe é sensível.

 

O objeto tem sua afluência por toda a casa, mais ou menos independente dos vãos que constituem o amplo dos ângulos da casa — porque é justamente o corpo, em sua contiguidade ou distanciamentos, que assinala com gestos esta afluência, que é toda sentido, impressão, memória, angulosidade orgânica no ser, intuição, perspectividade — e ociosidade.

 

Referências

 

BACHELARD, G. Poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

DUBY, Georges, L’Histoire des mentalites, in SAMARAN, Charles (ed.). L’Histoire et ses methodes. Paris: Gallimard, 1961.

HEIDEGGER, Martin. Construir, Habitar, Pensar. In: Ensaios e Conferências. 8ª ed. Trad. Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel, Márcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes. 2012.

MIRA, Feliciano de. Ao Correr do Olhar – Contributos para uma epistemologia metafórica.  Série Edições Subjectivas. Arraiolos, Portugal: Oficina do Espírito, 2013.

______. About Lines, Arquivo pessoal do autor (Work in progress): Portugal, 2012.

______. Hotel Siesta. Arraiolos, Portugal: Oficina do Espírito, 2016. 124 pp. ISBN: 978-85-9563-047-5.

SIMONDON, Gilbert.  Du mode d’existence des objets techniques. Paris: Aubier Montaigne,1969.

SLOTERDIJK, Peter. Sphären IBlasen. Frankfurt am Main, Suhrkamp Verlag, 1998.

 

 


[1] Conceituamos “intuição sensível” na qualidade de primeiro plano receptivo da cognição quanto aos fenômenos exteriores. “Intuição sensível” é a porta de entrada da coisa, num processo de significação e intelecção, no horizonte do entendimento humano. “Intuição sensível” é talvez a primeira instância de apreensão da consciência anterior à racionalização da coisa intuída. Em contraste, dificilmente um objeto pode ser intuído enquanto coisa, a não ser por ausência de familiaridade num processo de similitude a outros objetos conhecidos e racionalizados.

[2] O objeto duchampiano representa, quase com perfeição, o sujeito-no-limite-da-existência da modernidade. Este cubo “sem muros”, em que se requerem todas as ausências de condições à liberdade, tão-somente porque encontra-se enclausurado. O espírito do sujeito moderno é tal como o rolo de linhas “sob a pressão dos metais”, linha que não possui um ponto inicial patente e nem ainda teceu a sua história. Este espírito não fora lançado no mundo.

[3] Natureza no sentido de acontecimento, entrevisto de modo espontâneo, crescente; Natureza como o não racionalizado; de modo figurativo, extensão espacial habitada pela flora e pela fauna.

 

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