CONSIDERAÇÕES SOBRE “O RENEVAL” DE JOSÉ AMANCIO
by Giselma dos Santos Torres[1]  & Vanessa Biserra Pereira[2]

 

Resumo

O presente ensaio analisa a polêmica obra “O Reneval” (2018), do cultuado autor alagoano José Amancio, considerando sua relação com o trágico de Sófocles para aludir às nossas aporias hodiernas, ao assumir a voz de Antígone como protagonista narrativa do livro homônimo. “O Reneval” contém um caráter existencial multifacetado, aludindo ao trágico, ao irônico, à técnica, à ecologia, à angústia, em aparente voz profético. Neste livro reside uma crítica contundente ao homem contemporâneo e às suas condições, ao fazer poético longe das metrópoles literárias. Nos referenciamos a partir da obra de Staiger (1974) e de Nietzsche (1982) em alguns momentos, objetivando aprofundar alguns conceitos axiais presentes na obra aqui analisada.

Palavras-chave: O Reneval; José Amancio; Antígone; Trágico; Poesia contemporânea

 

CONSIDERATIONS ON “THE RENEVAL” OF JOSÉ AMANCIO

 

Summary

The present essay analyzes the controversial work “O Reneval” (2018) by the well-known Alagoan author José Amancio, considering his relation with the tragic of Sophocles to allude to our current aporias, when assuming the voice of Antígone as the narrative protagonist of the eponymous book. “Reneval” contains a multifaceted existential character, alluding to the tragic, the ironic, the technical, the ecology, the anguish, in an apparent prophetic voice. In this book lies a striking criticism of contemporary man and his conditions, making poetic away from the literary metropolis. We refer to the work of Staiger (1974) and Nietzsche (1982) in some moments, aiming to deepen some axial concepts present in the work analyzed here.

Keywords: O Reneval; José Amancio; Antigone; Tragic; Contemporary Poetry

 

Introdução

 

“O Reneval”[3] é uma obra escrita pelo autor José Amancio (pseudônimo de Wellington Amancio da Silva), poeta alagoano, fotógrafo, músico e professor universitário, nascido em Delmiro Gouveia, interior das Alagoas, no ano de 1979. Graduado em Filosofia e Pedagogia e mestre em Ecologia Humana, tendo publicado dezenas de livros acadêmicos e literários, fundador da Editora Parresia (2016), além de ter-se publicado quase uma centena de artigos acadêmicos, de sua autoria e coautoria, em revista científicas e especializadas. “O Reneval”, escrito totalmente em letras minúsculas, divide-se em sete seções, chamadas de litanias, cada uma das quais com sua característica específica, e por vezes atemporais, sendo que a primeira é assumida pela voz narrativa de Antígone; a segunda caracteriza o comportamento de sujeito contemporâneo, a terceira se debruça sobre o exercício da palavra, da escrita, do ponto de vista do autor; a quarta utiliza-se de certo humor sardônico para tratar dos “elementos de poder”: o rei, a realidade, o reino, as ordens, a mentira, a loucura; a quinta parece aludir à condição de ser do masculino e à condição de ser do poeta, e de sua “lida”, utilizando-se de fanopeia bastante visual e de caráter interiorano; a sexta se debruça sobre a “cacofonia” por meio de alegorias e metáforas; a sétima  refere-se às frustrações do poeta, é uma auto-ironia que expões a pessoa do poeta (denominado Zé) ao burlesco de suas tentativas e irrealização. Finaliza com o prólogo do cansanção jacinto e o pós-prólogo.

 

Questões analíticas de “O Reneval”

 

Segundo o autor, tais litanias não são preces religiosas, mas absolutamente dirigidas aos homens, são “orações” mundanas. O caráter de litania é o de recorrer à solenidade requerida para o tratamento dos temas contidos no livro, seja por meio da leitura silenciosa ou da recitação.

Segundo o autor, em entrevista[4], “O Reneval”:

[…] é dividido em sete seções, cada uma das quais denominadas de litania[5], cujo substituto, geralmente uma frase em latim, assinala o espírito do conjunto dos versos. Recorro à personagem de Antígone, de Sófocles, assumida na condição de voz discursiva da maioria das litanias, pois eu não poderia fazê-lo sozinho. Antígone abre-se à oratória da primeira litania, falando de si, falando do topos sobre o qual está-se, falando do horizonte existencial que a rodeia, falando dos seus complexos sentires, falando do destino, e sua fala é a celebração a égide da Cacofonia (ou o áureo da linguagem que melhor evoca o mundo). Antígone aceita o destino e compreende sua tragicidade, e é por aceitá-lo e compreendê-lo que investe sobre ele. É a personagem mais forte mundo. Ela, Antígone — a filha e irmã de todos os homens desventurosos — é mais forte que o destino. É disso que trato na primeira litania — o fato de Antígone ser mais forte do que o destino. Antígone é Aquela-que-recusa! (AMANCIO, 2019).

 

Em “litania primeira (em reneval menor)”, ou uma prece espatifada segundo o espatifamento de mundo circundante, o autor inicia: “pensou Antígona (à cacofonia aquosa de um emerso em mar de mármore)”, e de onde vem o sujeito contemporâneo, senão deste mar leitoso e quase uniforme[6]? E esse sujeito que emerge do mar de mármore pode ser o próprio autor, apresentado pela voz da protagonista, filha da relação incestuosa ente Édipo e Jocasta — e o autor mais tarde “narrará obliquamente, ou aludirá aqui e ali”, por assim dizer, este “caso de amor e morte” sofocliano, por meio de alusões esparsas, tergiversações poéticas e repetições, e ainda, por meio de alusões (como nos disse o autor) ao que poderia ser “a psicologia[7] do eu de Antígone”. Assim, para o José Amancio, no seu livro homônimo “a Cacofonia assume uma dimensão especular do mundo”.

Antígona segue falando de si, e em seguida parece expressar a angústia diante da caoticidade que a rodeia, declarando sua opção pelo álcool: “Sou homo etílicus/ uomo qualunque/ australoboteco (…)” (AMANCIO, 2018, p. 15), se como obscuro no meio desta sentença oscila algum ressentimento ao pai Édipo, não sabemos — embora pareça-nos muito claro o impacto da morte do pai aí, e quando se diz “australoboteco” parece Antígone rudeza de espírito e residir no interior. É interessante o uso de termos latinos, de multilinguíssimos, aglutinações e expressões regionalistas, de gírias, arcaísmos, aliterações, fissuras verbais, paronomásias e palavras-montagens ao estilo de James Joyce, em toda a obra.

Dito isso, para Antígone, sua insatisfação com a existência torna-se patente no verso: “E eu não me importo com a porção de cicuta no pão da fome” (AMANCIO, 2018, p. 16), porque diferente de Sócrates — que segundo Nietzsche (1982, p. 104), se opunha ao ser trágico, tomou a cicuta para “sarar-se” desta vida pela morte —, Antígone parece vê a existência como cicuta em si mesma, e que não mata, mais embriaga, e o álcool é uma espécie de panaceia diante das dores do mundo. Por conseguinte, em relação ao modo idiossincrático pelo qual o autor nos apresenta o trágico através da voz de Antígone, o professor Staiger (1974) defende que “[…] o orador nesses casos dirige-se a si mesmo e impetuosamente blasfema contra ou procura persuadir-se da subcondição de sua existência no mundo (p. 124)”.

A licença poética regional do autor é bem retratada na expressão: “Eis a fúria em si, num ricto! E aquela fúria crônica e silente (arquipélago de cânceres miúdos) continha um vaziozão da gotasserena!”  (AMANCIO, 2018, p. 18). O gosto musical aparece não só nos títulos das litanias mas nos versos que as compõe “Lapsos de arquejo em dó maior […]” (AMANCIO, 2018, p. 25), e é de tal forma importante a musicalidade que o autor faz questão de informar que ouviu as “Music in twelve parts” de Philip Glass para compor um dos capítulos do livro, e ainda inspira-se em reminiscências da canção Fitter Happier do álbum “OK Computer”, do Radiohead, o qual em 2002, “escutava compulsivamente” — segundo nos disse o autor.

O autor recorre novamente ao patético (pathos), porque o monólogo da primeira litania se encerra com a aparição de Jocasta gritando indignações, em tom provinciano, contra seu marido, “Zé! Seu ca-cha-cei-rosa-fa-do! Disse Jocasta, sua esposa” (AMANCIO, 2018, p. 31). Esta “aparição” conclusiva, de Jocasta assumindo esta afirmação destoante, causa-nos a impressão de precipitação de valores distintos: a dignidade de Antígone que resiste versus o engajamento de Jocasta às pequenas coisas, ao agon da vida privada com o esposo Zé[8] e seu desequilíbrio diante da decadência de Zé (Édipo). E isto demonstra uma ambientação de parte da história de Sófocles no cotidiano menor, sertanejo, em que Édipo é revestido de Zé, devido ao eclipse do seu caráter trágico-suicida pelo vício alcoólico — e o autor afirmaria mais tarde que “a relação incestuosa entre Édipo e Jocasta — relação esta não antes reconhecida — é de uma perspectiva literária-caatingueira, no sertão, uma incestualidade de caráter identitário, de desenraizamento e despertencimento, não apenas de lugar, mas de corpo e de alma, como um incesto heterotópico, isto é, o amalgamento cultural e existencial não reflexivo à matriz fundadora, por uma negação confusamente reflexiva crônica e profunda, porque vê-se vaidosamente a partir da metrópole, como Édipo via-se a partir da sua falsa realiza”.

A curta litania segunda (efusiva e devotada) traz em quatro páginas as bestialidades do cotidiano envaidecido do ser humano, sobretudo (como nos disse o autor) “deste personagem de meia idade, que busca o preterido da sua juventude”, qual seja, a busca pelo comportamento impecável e a exagerada vaidade com o corpo, a ojeriza às convencionalizadas e desarmônicas protuberâncias: “exercício regular na academia/ quatorze bem executadas flexões/ porque perder o peso é perder a barriga” (AMANCIO, 2018, p. 36). E tal insistência vaidosa da personagem é vã, pois o narrador de quando em quando, conclui, a cada meia dúzia de estrofes: “e o mundo não é senão postura!”,” e o orbe não é senão postiça!”, “e o orbe não é senão pústula!”,” e o orbe não é senão betume!”, “e o orbe não é senão um póstumo!”.

Segundo o autor:

Fiz a segunda litania inspirado na sétima canção Fitter Happier do álbum “OK Computer”, do Radiohead (que possui também esta entonação de litania) — em ““O Reneval”” toma a forma de uma alusão ao homem contemporâneo, de meia idade, em busca do que fora, e não compreende bem esta busca (AMANACIO, 2019).

 

E assim a insistência no trágico — e em seu produto, o patético —, é por demais persistente, que após estrofes o autor conclui em verso, de teor realista, por assim dizer, “hiperbolizados”, e quase pessimistas.

Litania terceira (tocada em si) é ainda menos extensa, vem nos trazer o vislumbre da importância da palavra, seu sentido e condições e “possibilidade” de imersão, diante da vasta e indômita linearidade do universo, “na palavra cabe um mundo tudo empilhado e num canto e é lá quase nada quase um ‘talvez’ ou um ‘quem sabe’ na palavra cabe tudo aquilo que se avista e que se abre” (AMANCIO, 2018, p. 41). Observa-se que esta investida interessada em conquista sobre o mundo, por meio da palavra, por vezes não atende às pretensões para tais investidas, quando justamente o paradigma desta investida sobre o mundo não possui um télos duradouro, visto que o autor alude a objetos-de-mundo, ou à objetivação, isto é, transmutação do mundo, pela palavra e pela técnica moderna, em Utensílio, e “tudo empilhado e num canto”.

Dividida em dez versos, litania quarta (oratio invicta) observa a solidão de um reino sem súditos, de um rei em decadência e desespero, que procura no reino algo em que possa se agarrar, mas não o acha. Crente no poder, talvez não perceba que não exista o poder, que ele não possui o poder — observe o caráter de poder ecológico contra o “rei desapoderado”: “Um dia ele disse: ‘calem-se os pardais!’ e os pardais mancharam a fachada real/ um dia ele disse: ‘cortem as ramas!’/ e as ramas retornaram com maior ímpeto/ um dia ele disse: ‘podem as frondosidades!’/ e as frondosidades encobriram de sombras todo o reino e extensamente além/ essas não eram más ou boas/nem falavam mal de alguém/eram somente sombras à toa/” (AMANCIO, 2018, p. 49). E após observadas as investidas frustradas do rei, ao fim anuncia-se a sua partida para nenhum lugar: “E o rei de ‘atepoché’ já era! ele antes disse, ‘estou muito cansado das gentes’ e sozinho convergiu para si em satisfação fingida” (AMANCIO, 2018, p. 52), porque não possui reino, porém “derreino” (como denomina o autor na dedicatória, após a epígrafe do livro).

Na litania quinta (nulisseu) há elementos de prosa em meio aos verso. Em muitos momentos adquire a forma de narrativa. Nesta, o rei ou o autor (porque a quinta litania é a sequência daquela pequena saga do rei Lavener) contempla a vida das aves, e se questiona sobre o gênero da vida, e ao fim percebe que o gênero na verdade não existe, o que existe é apenas o que se encontra ali: o destino, a noite, o que está disponível à mão, fogareiro, lajeiro, lâmpada, cipoal, luz, nó, pedra, íris, ave, alquimia, sempre evocando a escrita.  Tal litania possui um aspecto lúgubre que nos remete a algo de Edgar Allan Poe e do filme “Os Pássaros”, de Hitchcock, e ao mesmo tempo a uma imagem sertaneja bucólica. Parece haver um caráter escatológico, especificamente porque a fauna se volta contra o homem “e as aves bicaram os frutos e foram-se todas para o hades” (AMANCIO, 2018, p. 57). O autor, ecólogo de formação, reitera e reforça a ideia: “[…] arrependido devolve ao tronco/ sua acha de lenha/ nunca roubaras uns paus/ para o teu fogareiro/ nunca mais matarás um bicho de mato/ para a fome fingida/”, e conclui: “caatinga não é macho nem fêmea” (AMANCIO, 2018, p. 57). Mais uma vez, o autor nos surpreende fazendo alusão à musica, quando cita o clássico álbum de Bob Dylan, o “Blood on the Tracks”, referenciando, a partir deste álbum, um dos caráter da paixão e do amor de gênero masculino.

Principia a penúltima litania, a litania sexta (macilenta), explicando o que vem a ser a cacofonia tão citada durante os capítulos anteriores. O autor utiliza-se do recurso da metáfora para descrevê-la: “A cacofonia é um tipo de susto entre os ouvidos e os olhos/ entre o signo e a convenção – pensou Marão[9] – sim, a cacofonia é um tipo de xisto na expressão” (AMANCIO, 2018, p. 61). Dizer que a cacofonia é um susto para os sentido (relativamente à leitura e a oratória), bem como entre o “signo” e a “convenção” do signo é afirmar que a cacofonia é um elemento exótico e sonoro influente no sentido mesmo do signo, ainda que inconveniente, todavia, influente, à margem de sentido, visto ser som, porém. Para o autor, “a cacofonia é como que é, porque o instrumento defeituoso que a construiu e que a faz soar defeituosa é proposital, é um instrumento perfeito em sua função, porque serve apenas para fabricar cacofonias, assim como os olhos e os ouvidos despreparados que ouvem e veem em tudo uma expressão feia”. No entanto, no imaginário do autor a cacofonia é um elemento concreto, como uma pedra no meio do caminho. O autor faz interessante releitura dos ditos populares “mágoa tolhe a quebradura/ pranto arde em fechadura/ língua morre em atadura/ tanto bate até que apura…” (AMANCIO, 2018, p. 61). E o rei continua seu caminho.

O “cachaceiro sacado Zé” é um personagem multifacetado, é uma espécie de “Édipo sertanejo vitimado pela ‘má notícia’ de Jocasta sua mãe, como se a vida fosse uma espécie de “incesto sofocliano”. Zé se faz novamente presente na última das litanias, a sétima litania, agora assumindo-se pelo narrador, o poeta, que se debruçasse sobre a condição e possibilidade da escrita poética, enquanto se reconhece um Zé. Tais versos curtos são “metapoemas”, porque apresentam-se qual uma espécie de “analítica do verso”, por meio, sobretudo, do trajeto do sujeito da poesia, ao tratar do que denominamos de “crise existencial do poeta”, a partir de suas contradições febris: “Zé escreve versos/ às vezes perversos/ outras, para que o quis/ dizer, inversos/ transversos para o ser/ diversos para o querer/ zé não descansa a pena que não tem paz/ nem faz as pazes/ com a cantilena/ Zé descreve o mundo/ em versões singelas/ que pena” (AMANCIO, 2018, p. 65), e concluindo esse universo, Zé não se importa mais com o que o cerca, mas apenas com o que faz “Ao invés de morrer ou fugir escrevia livros” (AMANCIO, 2018, p. 67). Zé é um estereótipo — como nos disse o autor:

“Zé, nome monossilábico, muito genérico, quase uma onomatopeia, é o “personagem de passagem” que incorpora o Zeitgeist sertanejo interiorano do homem que não tendo nada para fazer da vi se embriaga sem saber, por ser iletrado, que a sua vida é sem sentido. Às vezes o poeta recorre ao Zé para saber de si; às vezes recorre ao Zé para ironizar os poderes deste mundo”.

 

E essa relação de Zé, como “sujeito que o mundo torna idiota” segundo o autor, é relação esta muito comum nas gírias do interior sertanejo, e é utilizada por este como recurso patético ante à desventura de Édipo. […] eu sou, de fato, um zé – pensara Édipo naquele dia – “(AMANCIO, 2018, p. 25). Nos prólogos são arrematados alguns termos para esclarecer o enredo do livro.

 

Considerações

“O Reneval” nos apresenta fanopéia inusitada, por meio de imagens refratárias a qualquer referencialidade, mesmo a do trágico, e sem esforço e cônscio disto, o autor promove um amálgama quase violento entre as profundas heterotopias e heterogeneidades contemporâneas, no arcabouço das condições do ser originais e universais constantes no trágico, como técnica de hiperbolização ontológica. O livro nos traz em sua essência as impressões mais profundas de um ser perdido e em agonia delirante, a busca por sentido na sua existência é latente, um rei em decadência procura  dentro de si e dentro de seu reino denominado atepoché[10] (uma referência ao epoché grego, a suspenção), talvez outrora em glória, mas agora desértico, o motivo da sua base perdida, é um exilado no próprio “derreino”, ao perceber que não pode encontrá-lo, e desiste — e a condição do rei é assaz humilhante que não há memória do reino. Por outro lado, em outras litanias é possível notar o apreço pela vida simples, tão desvalorizada na contemporaneidade.

Em “O Reneval”, desperta-se os prazeres pelas coisas simples, ao mesmo tempo a tristeza de um mundo perdido e a esperança de sentimentos melhores em um misto de palavras profundamente referente, mas sem a necessidade de conexões óbvias. O que produz favoráveis instantes de reflexão, em que é possível vivenciar inúmeras impressões com a leitura. Para o mundo loucura, para os sensíveis a palavra, alento. O livro certamente trata do desencantamento de mundo — talvez nas entrelinhas, queremos intuir —, dos níveis caóticos de urbanidade crescentes no interior do sertanejo, e da impregnação da cultura de massa no arcabouço da cultura endógena do lugar descaracterizando-a (fenômeno consolidado já na década de setenta).

“O Reneval” é um livro único, sui generis e indiscutivelmente vital aos que buscam na literatura um diálogo acerca da existência, um fôlego de renovo — para seguir na escrita, na leitura e na reflexão — diante da tragicidade da vida hodierna. Em aparente voz profético, abre-nos uma porta ao horizonte ainda sem nome do tempo presente, sobre o qual fazemos círculos: o Reneval nos apresenta uma chave de sentidos para o nosso “hic et nunc”.

 

Referência

AMANCIO, José. “O Reneval”. 2. ed. Delmiro Gouveia: Ed. Parresia, 2018. 76 p.

______. Entrevista com Leo Barth. Delmiro Gouveia: Ed. Parresia, 2019.

NIETZSCHE. Origem da tragédia. Lisboa: Ed. Guimarães, 1982.

POUNDEzra. ABC da Literatura. São Paulo: Ed. Cultrix, 2006

STAIGER, Emil. Conceitos fundamentais da poética. Ed. Tempo Brasileiro: Rio de Janeiro, 1974.

 

 

 

 

[1] Discente do curso de História na UFAL — Universidade Federal de Alagoas, Campus Sertão.

torresgiselma8@gmail.com

[2] Discente do curso de História na UFAL — Universidade Federal de Alagoas, Campus Sertão.

 vanessabiserra@hotmail.com

[3] O autor nos informou que “reneval” é corruptela de renewal, palavra inglesa, que significa “renovação”.

[4] Consta na 3ª edição de “o reneval”.

[5] Segundo o autor, Litania é “prece”, “reza” geralmente em forma de petição ou louvor. No livro homônimo adotou-se tal formato, sem pretensões religiosas ou de crítica à fé. Temos aqui preces mundanas, alçadas a nenhum deus e para lugar nenhum. São cânticos sinuosos ofertados aos homens, ao entendimento dos homens.

[6] Talvez o mármore represente esta “imagem mista e insuficiente, entre a força nunca efetiva do homogêneo, o ilusório, e a resistência perene das almas heterotróficas de carne e osso”, como disse o autor.

[7] Está muito clara a abordagem psicológica do autor sobre o trágico, quando utiliza-se do recurso da voz subjetiva de Antígone para estudar o espírito do homem contemporâneo, o Zeitgeist deste nosso tempo.

[8] Em substituição a Laio, depois morto por seu filho Édipo, o rei de Tebas, que sem saber, se une posteriormente a sua mãe Jocasta, após ter matado o próprio pai, sem o saber.

[9] Públio Vergílio Marão (70-19 a.C.), autor romano clássico. Escreveu as “Bucólicas”, as “Geórgicas”, e a “Eneida”.

[10] Segundo o autor atepoché é aglutinação de “até” com “epoché”, palavra grega que significa suspensão. Até diz respeito a limite de espaço. Atepoché (pronuncia-se atepoqué) pode significar o limite de um topos que ainda não aconteceu como lugar, isto é, como possibilidade e condição de habitação de pessoas, porque tal reino é somente de e para o rei Lavener.

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