6 poemas
by Rolando Augusto

 

alvéolos ínferos

 obra sucata de coração imprudente fez
            aquele não permitindo entre corpo
e linguagem sinal de menor cópula

            pensou ocupar-se apenas do espírito
atribuindo equívocos ao corpo
            e vocábulos atinados ao pensamento em repouso

mas agora o vento nos atormenta e
            nos faz presentes em meio a águas imensas
imaginamos o inimigo nas redondezas

           e ele sem novas da guerra sequer nos pensa
nas ondas do aqueronte opulência sicária
            naked egg insensato e levado de barca

ao mais turvo lordo da bocarra do inferno
            setas inúteis o vencedor agitará
tendo em mira a sombra dos vencidos

            ainda no palácio mudo de ramos e brisa
com desnecessária perícia – depelo congelado –
            equipes rivais para distrair a eternidade

jogam um xadrez de dés no quadrículo interminável
            uma folia de reis onde campeia o empate e
quizila sem margens jugulando talento

            almas-rãs romaria serpente atada à
própria cola e às vezes à alheia
            indo dar por círculos vagabundos em areia

incandescente com rastros de mais gente

 

cohab pestano

 

onde é pelotas, afinal de contas?
uns concordam que é no laranjal.

ou que é ali no mercado e suas imediações
a biblioteca o quindim de nozes.

os doces negros dos negros de pelotas
muitos juram que é onde pelotas.

têm aqueles que vão convencidos
de que pelotas é algo dos ramil.

de que pelotas agora é outra
que é outra onde angélica freitas.

onde é giba giba, afinal, pelotas?
é ainda pelotas ao final de tantas?

pelotas até cohab pestano
onde extremo o aeroporto é pelotas.

esgoto a céu aberto
onde o pestano a contragosto é pelotas.

onde é o povo negro no pestano
a poeira das ruas de terra e chão.

o ir e vir do povo do pestano
onde afinal é pelotas, a que eu sei.

 

alguém virá

quem virá lília ou manuel está
     contido em ipásia
da grávida ipásia digo
     quem virá manuel ou lília

o sonho de quem virá
     lília ou manuel em suas entranhas
quem virá manuel ou lília
     dorme no cerro de ipásia

           alguém lília ou manuel
     vai surtir do encerro de ipásia
surtirá de ipásia surtidora
     alguém manuel ou lília

 

a música de moacir santos, como ela aparece

para kant não podemos coisar as coisas como elas são
se o alemão tivesse sido contemporâneo de moacir santos
talvez a coisa não fosse bem assim

o filósofo do idealismo ainda teria de sacar alguma coisa de música
afinal, isso é coisa de negro:
basta colocar um piano na frente deles (de um modernista de 22)

mas quando duke se viu cara a cara com um piano, disse:
“isto não é piano, é sonhar, ouça…”
assim moacir santos com a boca em seus sopros

já que a tormenta essencial do corpo,
a música: graus de identidade em
impenetrável insubsistência

supor-se poeta ao invés de bebum

corajoso apenas o bebum solitário
não basta ter colhão para
bebendo em grupo sindicalizado
proferir asneiras na esperança intimorata
de que no momento
seguinte nossas necedades rebrilhem
à maneira de árduos achados

sem ninguém com quem dividir o próprio ridículo:
esse o bebum de verdade opulento no opróbrio
nem mesmo os heróis homéreos (remeiros subalternos
quando postos em relação com o solerte e laércio odisseu)
libando além do dionisiacamente tolerável
nem mesmo tal progênie sabia beber

em equipe bebuns se ombreiam
até o ponto em que um
graças ao virtuosismo
se destaca do restante
espécie de mártir que absolve
os que ficaram mais atrás

bebum de verdade bebe sozinho
se é para beber em grupo
que se beba junto com o vinho 
ou a cerveja escura, que se beba junto
o riso de si mesmo de pacto com o vizinho
beber em grupo e dar-se em espetáculo (misto
de imolação e amolação)
é mais de envergonhado do que de sem vergonha

bebum de respeito bebe consigo mesmo
não obriga o cristão
a suportar misericordioso
sua cólica narcísica

o bebum sabe que não é poeta
bebuns supõem-se grandes poetas

 

subir ao passado

ao apartar a cunha da árvore
o verde debaixo das unhas
intérprete do rugitar de oito sílabas
no côvado de lado da velha cantica

 inciso o ouvido porfioso
pérfido quando em revista
passa a commedia
ao modo de vaudeville

 

Ronald Augusto (1961) é poeta, letrista e crítico de poesia. Formado em Filosofia pela UFRGS. Autor de, entre outros, Confissões Aplicadas (2004), Cair de Costas (2012), Decupagens Assim (2012), Empresto do Visitante (2013), Nem raro nem claro (2015) e À Ipásia que o espera (2016). Dá expediente no blog www.poesia-pau.blogspot.com  e escreve quinzenalmente no http://www.sul21.com.br/jornal/ Realiza palestras e oficinas/cursos abordando assuntos como música, poéticas contemporâneas, literatura negra e poesia visual. Entre 2007 e 2012 manteve ao lado do poeta Ronaldo Machado a Editora Éblis, voltada para a poesia. De 2009 a 2013 foi editor associado do website WWW.sibila.com.br. Tem colaborações (resenhas e artigos de cultura e arte) nos cadernos Cultura do Diário Catarinense, do Correio do Povo e do jornal Zero Hora.

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