ANA HATERLY: PINTURA DE SIGNOS
by Fernando Aguiar
Junho de 2016

 

Esta exposição, proposta por Manuel Portela, tem como objetivo mostrar a multiplicidade de formulações técnicas e estéticas utilizadas por Ana Hatherly ao longo de mais de 40 anos de atividade. Por essa razão, e também por o número de obras apresentadas ser reduzido, não existe uma unidade formal ou estilística, procurando-se antes, através da diversidade das obras, exemplificar uma inquietação própria da criatividade da autora, cuja linha de trabalho se situava numa fronteira de indefinição entre a escrita e a visualidade, uma das características enquanto precursora da poesia experimental em Portugal e também enquanto reconhecida artista plástica.

Embora uma parte substancial da sua obra visual esteja diretamente ligada à palavra e aos signos gráficos, em determinadas alturas realizou trabalhos onde as cores e as tonalidades se revelaram como um fator de exploração primordial, de que a série “Viagem à Índia e outros percursos”, apresentada no Museu do Chiado, em 1997, será um exemplo.

À semelhança de outros artistas, Ana Hatherly trabalhava por séries, explorando as possibilidades que cada uma lhe proporcionava e, nesse sentido, poder-se-á considerar que cada uma destas obras representa uma porta para a descoberta de um conjunto de trabalhos que essa obra invoca.

Estão patentes desenhos, pinturas e colagens de diversas décadas, desde um retrato de Natália Correia e um autorretrato de 1961, passando pelas reconhecidas caligrafias com conotações poéticas que constituem, porventura, a faceta mais conhecida da sua obra plástica, passando pelos anos 90 com uma renovada expressividade pictórica e onde a força do cromatismo é mais evidente, até aos anos 2000, sobretudo a sua última fase, com um conjunto de obras denominado genericamente de “Neograffitis”.

Os anos 80 foram dedicados principalmente à atividade docente, à investigação e à publicação de livros, alguns relacionados com as pesquisas dedicadas ao barroco e aos textos-visuais portugueses dos séculos XVII e XVIII, razão pela qual foi escassa a produção de obras visuais, exceto para responder a solicitações específicas.

Atenta às realidades sociais, apresentam-se algumas obras que demonstram a envolvência de Ana Hatherly com acontecimentos marcantes, como a Revolução de Abril (de que a conhecida série “As Ruas de Lisboa”, da coleção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian é o exemplo mais significativo), as referências a Timor-Leste e ao 11 de setembro de 2001.

Refutando o conceito de “coerência” que normalmente se gosta de evidenciar nos artistas plásticos, Ana Hatherly optou por uma intransigente ousadia expressiva e uma libertadora irreverência criativa, deixando a imaginação invadir os suportes, normalmente simples, onde executava as suas obras plásticas, elegendo espaços de provocação e de experimentação, ao invés de se decidir continuadamente pelas mesmas soluções.

Apesar de não ter sido um critério de seleção, muitas destas obras são inéditas, o que poderá acrescer ao conhecimento que já se tem da autora, considerando as exposições individuais realizadas e o elevado número de publicações, nas quais consta uma quantidade significativa da sua produção visual e gráfica.

As obras e os documentos patentes na exposição são provenientes do Arquivo de Poesia Experimental Fernando Aguiar, que possui um extenso núcleo dedicado a esta escritora e artista plástica, constituído por pinturas, desenhos, colagens, gravuras e serigrafias, livros, catálogos, cartazes, fotografias, negativos fotográficos, desdobráveis, convites, objetos iconográficos e outros documentos.

Resta agradecer à Fundação Portuguesa das Comunicações a disponibilidade em acolher a exposição, assim como ao Festival Silêncio e a Manuel Portela a realização do Ciclo “Ana Hatherly: Anagrama da Escrita”.

 

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